segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Contos de apartamento 

Parte 1

Mais uma vez, me encontro dentro de um cômodo obsoleto. O som incessante das ruas entra pela janela da sala e quebra toda a ordem estabelecida naquele pequeno apartamento. Os homens riem, as mulheres gritam e as crianças choram. Mais uma vez, no apartamento ao lado, o jovem casal começou a discutir novamente. Gostaria de saber qual foi o motivo da vez. Mais uma traição descoberta por uma das partes? Seria a quinta vez desde que me mudei para cá. Entretanto, acho que isso já se tornou comum entre os jovens casais. Não seria a primeira vez que essa cena viria a se repetir. A paixão vai se apagando, os afagos vão se extinguindo e o desapego vai alimentando os resquícios de uma bela emoção. No fim, tudo o que resta é o vazio dentro de duas pessoas que ficam deitadas em uma cama, sem coragem para admitir a realidade e no aguardo de alguma intervenção divina para seguir em frente. As discussões se tornaram constantes, mas acabam se tornando o único momento juntos que eles podem desfrutar, já que os beijos tornaram-se tão vazios quanto as suas almas e o sexo já não existe. As suas vozes perderam a sintonia, como uma tentativa falha de cantar Back to Black, da Amy. Enfim, o amor desapareceu no ar, como a fumaça da última tragada no cigarro, enquanto os sons das ruas torna-se a trilha sonora para o fim.

Tento aumentar o volume da música para abafar o barulho, mas é notável que nem o mais agonizando do grunge vá amenizar aquela mistura de caos e depravação que afogam o meu apartamento em mais amargura. O cinzeiro já transbordava, enquanto eu já me encontrava no meu oitavo cigarro. A lenta morte me consumia, enquanto eu tentava fazer aquela fumaça vazia preencher aquilo que ainda não havia morrido dentro de mim. Encostei-me na cadeira, pus os pés sobre a mesa e tentei destilar das melancólicas letras de um estilo musical natimorto. Por um momento, nada parecia fazer sentido até que ouvi a quinta faixa da lista musical. Heart Shaped Box e toda a sua letra sem sentido são como um soco do meu surrealismo expresso nos meus fracassos literário, os quais eu chamo de poesia. As folhas rasgadas e jogadas ao meu redor são a mais perfeita visão da decadência de um artista sem dom. Um louco que busca a compreensão em um mundo de falsa sanidade. Um mero sátiro em busca de seriedade. Um boêmio e hedonista em busca de uma paixão verdadeira. O surreal me persegue e cerca, querendo me jogar no maldito ócio. Toca mais uma faixa. Lithium transmite aquilo que o meu ócio necessita. A mente conturbada de um subestimado. A automutilação do ego e a destruição do amor próprio se unem. 





Nenhum comentário:

Postar um comentário