terça-feira, 30 de agosto de 2016

Devaneios

Um cigarro aceso entre os dedos e o copo de whisky na mesa
Observando em uma das últimas mesas, contemplando cada nota daquela composição magnífica Isso faz renascer as memórias das últimas noites, onde o orgasmo se tornou parte do seu aroma natural Em cada expelir da fumaça do cigarro, ouve-se os grunhidos e suspiros de prazer, misturados com as notas sonoras expelidas pelo salão Em cada gole de whisky, o refrescar das partes perdidas, dos amores temporários, dos nomes esquecidos, dos sentimentos superficiais e secos de uma noite invernal.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Contos de apartamento 

Parte 1

Mais uma vez, me encontro dentro de um cômodo obsoleto. O som incessante das ruas entra pela janela da sala e quebra toda a ordem estabelecida naquele pequeno apartamento. Os homens riem, as mulheres gritam e as crianças choram. Mais uma vez, no apartamento ao lado, o jovem casal começou a discutir novamente. Gostaria de saber qual foi o motivo da vez. Mais uma traição descoberta por uma das partes? Seria a quinta vez desde que me mudei para cá. Entretanto, acho que isso já se tornou comum entre os jovens casais. Não seria a primeira vez que essa cena viria a se repetir. A paixão vai se apagando, os afagos vão se extinguindo e o desapego vai alimentando os resquícios de uma bela emoção. No fim, tudo o que resta é o vazio dentro de duas pessoas que ficam deitadas em uma cama, sem coragem para admitir a realidade e no aguardo de alguma intervenção divina para seguir em frente. As discussões se tornaram constantes, mas acabam se tornando o único momento juntos que eles podem desfrutar, já que os beijos tornaram-se tão vazios quanto as suas almas e o sexo já não existe. As suas vozes perderam a sintonia, como uma tentativa falha de cantar Back to Black, da Amy. Enfim, o amor desapareceu no ar, como a fumaça da última tragada no cigarro, enquanto os sons das ruas torna-se a trilha sonora para o fim.

Tento aumentar o volume da música para abafar o barulho, mas é notável que nem o mais agonizando do grunge vá amenizar aquela mistura de caos e depravação que afogam o meu apartamento em mais amargura. O cinzeiro já transbordava, enquanto eu já me encontrava no meu oitavo cigarro. A lenta morte me consumia, enquanto eu tentava fazer aquela fumaça vazia preencher aquilo que ainda não havia morrido dentro de mim. Encostei-me na cadeira, pus os pés sobre a mesa e tentei destilar das melancólicas letras de um estilo musical natimorto. Por um momento, nada parecia fazer sentido até que ouvi a quinta faixa da lista musical. Heart Shaped Box e toda a sua letra sem sentido são como um soco do meu surrealismo expresso nos meus fracassos literário, os quais eu chamo de poesia. As folhas rasgadas e jogadas ao meu redor são a mais perfeita visão da decadência de um artista sem dom. Um louco que busca a compreensão em um mundo de falsa sanidade. Um mero sátiro em busca de seriedade. Um boêmio e hedonista em busca de uma paixão verdadeira. O surreal me persegue e cerca, querendo me jogar no maldito ócio. Toca mais uma faixa. Lithium transmite aquilo que o meu ócio necessita. A mente conturbada de um subestimado. A automutilação do ego e a destruição do amor próprio se unem. 






Desejos Impuros


Cá estou, mais uma vez, sendo subjugado por uma fatal sedução. Jogado na cama, eu a vejo se despir, lentamente, como se estivesse a executar uma bela dança. Movimentos alucinógenos, que me faziam vagar por um mundo de sonhos e devaneios. Como se os deuses a tivessem criado para mim. Só para mim.

Descontrolado, eu me levantei e avancei sobre àquele corpo. Ela fez-me recuar apenas tocando com o seu indicador em meus lábios e lançando-me um olhar penetrante.

- Ainda não... - ela disse, sussurrando em meu ouvido e me empurrando na cama - ...tenho que brincar com minha presa.

Ela avançou sobre mim, como uma fera indomada. Seus intensos beijos fazem produzir a mais pura endorfina do meu corpo. Suas mordidas e arranhões destilam da fúria que dorme em mim, mas que habita naquele ser belo e perigoso. Ela estava conseguindo tornar-me um animal, e quanto mais eu sentia os seus lábios nos meus, mais eu queria faze-la sentir o calor que eu sentia naquele momento. Queria faze-la sentir o meu corpo no dela.

- Eu vejo em seu olhar aquilo que você é, e aquilo que não quer me mostrar. - ela me disse, olhando em meus olhos.- Mas, eu sei o que você quer. Eu sei do que você precisa. Eu lhe permito buscar.

Nesse momento, não pude responder mais por mim. Segurei àqueles belos cabelos, e a puxei para a cama, ficando sobre o seu corpo. Beijei-a loucamente. Fiz os meus lábios percorrerem o seu corpo, e a minha língua sentir o prazer de saborear cada detalhe dele. Seus suspiros e gemidos me enlouqueciam. Nossos corpos não nos pertenciam. Somos duas imparáveis forças da natureza. Já não poderia privar o resto do meu corpo de sentir o seu, e logo após um sorriso permisssivo penetro.em você, com a mesma ferocidade de um leão, e quanto mais as suas unhas rasgavam a minha pele, e os seus gemidos quebraram qualquer silêncio, e com mais força eu agiria sobre aquele corpo. E assim se desenrolou a madrugada. Em agressividade e prazer.

Por fim, eu a deixei montar sobre o meu corpo, e cavalgar enlouquecidamente. Suas expressões deixava exposto o seu prazer, e o seu sorriso demonstrava que ela havia feito o mesmo comigo. Havia-me tirado do status quo de divindade à animal. E juntos, gozamos. Gozamos como se não houvesse um fim. Gozamos após uma noite de amor e selvageria.

Ela havia conseguido. Eu deixei-me enfeitiçar, graças àquela voz, aquele olhar e aquele corpo. Eu estava ajoelhado, abraçando as suas pernas. Eu era dela. Eu era, finalmente, dela.

- Tudo o que eu quiser? - ela perguntou, suavemente.

- Tudo. - eu confirmei.