Contos de apartamento
Parte 1
Mais uma vez, me encontro dentro de
um cômodo obsoleto. O som incessante das ruas entra pela janela da sala e
quebra toda a ordem estabelecida naquele pequeno apartamento. Os homens riem,
as mulheres gritam e as crianças choram. Mais uma vez, no apartamento ao lado,
o jovem casal começou a discutir novamente. Gostaria de saber qual foi o motivo
da vez. Mais uma traição descoberta por uma das partes? Seria a quinta vez
desde que me mudei para cá. Entretanto, acho que isso já se tornou comum entre
os jovens casais. Não seria a primeira vez que essa cena viria a se repetir. A
paixão vai se apagando, os afagos vão se extinguindo e o desapego vai
alimentando os resquícios de uma bela emoção. No fim, tudo o que resta é o
vazio dentro de duas pessoas que ficam deitadas em uma cama, sem coragem para
admitir a realidade e no aguardo de alguma intervenção divina para seguir em
frente. As discussões se tornaram constantes, mas acabam se tornando o único
momento juntos que eles podem desfrutar, já que os beijos tornaram-se tão
vazios quanto as suas almas e o sexo já não existe. As suas vozes perderam a
sintonia, como uma tentativa falha de cantar Back to Black, da Amy. Enfim, o
amor desapareceu no ar, como a fumaça da última tragada no cigarro, enquanto os
sons das ruas torna-se a trilha sonora para o fim.
Tento aumentar o volume da música
para abafar o barulho, mas é notável que nem o mais agonizando do grunge vá
amenizar aquela mistura de caos e depravação que afogam o meu apartamento em
mais amargura. O cinzeiro já transbordava, enquanto eu já me encontrava no meu
oitavo cigarro. A lenta morte me consumia, enquanto eu tentava fazer aquela fumaça
vazia preencher aquilo que ainda não havia morrido dentro de mim. Encostei-me
na cadeira, pus os pés sobre a mesa e tentei destilar das melancólicas letras
de um estilo musical natimorto. Por um momento, nada parecia fazer sentido até
que ouvi a quinta faixa da lista musical. Heart Shaped Box e toda a sua letra
sem sentido são como um soco do meu surrealismo expresso nos meus fracassos
literário, os quais eu chamo de poesia. As folhas rasgadas e jogadas ao meu
redor são a mais perfeita visão da decadência de um artista sem dom. Um louco
que busca a compreensão em um mundo de falsa sanidade. Um mero sátiro em busca
de seriedade. Um boêmio e hedonista em busca de uma paixão verdadeira. O
surreal me persegue e cerca, querendo me jogar no maldito ócio. Toca mais uma
faixa. Lithium transmite aquilo que o meu ócio necessita. A mente conturbada de
um subestimado. A automutilação do ego e a destruição do amor próprio se unem.